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ESPECIAL: a era dos cavalos de motores invade o interior do Estado da Paraíba - uma história de vidas reais

Redação | 1.11.12 | 0 comentários


Em cima de sua moto de 250 cilindradas, comprada há menos de um ano, o agricultor Murilo Araújo de Sousa se sente livre. E corre muito. A moto corta as estradas estreitas de curvas fechadas do Brejo paraibano sem dificuldades. Não existe obstáculo que impeça o agricultor de redesenhar os sinais dos novos tempos. Para quem está acostumado a tanger o gado, subir na máquina e desbravar a terra dura do semiárido do Estado é uma diversão que o mundo moderno lhe proporciona. Aos 28 anos, morador do sítio Bom Jesus, na zona rural de Alagoa Nova, ele é um dos tantos paraibanos que aposentaram os velhos jumentos e cavalos para se equilibrar em cima de duas rodas, confirmando uma tendência nacional.

Agricultor Murilo Araújo em cima de uma moto em Alagoa Nova   O transporte deixou de ser exclusividade do trânsito da capital João Pessoa e invadiu o interior paraibano, chegando com força na zona rural. Das 223 cidades paraibanas é difícil não vê uma pessoa montada em uma moto. E fazem de tudo com ela. O veículo, que chegou ao interior da Paraíba como redenção, mudou a rotina do homem simples da roça e facilitou a vida de muita gente. Aos olhos do homem do campo, a moto virou necessidade. Um meio de transporte rápido, equipamento auxiliar a pecuária e, claro, fonte de renda. Murilo não vive mais sem o transporte de duas rodas e está nela às 7h, quando o gado é tangido para o pasto, e às 16h, quando é levado de volta ao curral. “Aqui o pessoal só toca a boiada de moto”, conta.

Os cavalos de motores mudaram a realidade no interior paraibano. O fenômeno dos mototáxis, que invadiu as grandes cidades, é apenas um reflexo da nova realidade no interior. O sinal dos novos tempos está escrito no chão, riscado na terra, nos estreitos caminhos que interligam fazendas e sítios. Entre pegadas de bois e vacas, marcas de pneus redesenham a imagem das zonas rurais paraibanas. Saem os jegues, pangarés e cavalos de raça; entram os cavalos dos motores das motocicletas, mais rápidos e econômicos que os concorrentes de carne e osso. Uma mudança de cultura impulsionada pelos novos tempos.

O agricultor João Pereira Oliveira Araújo, 52 anos, morador da Rua Patrícia Freire, centro de Alagoa Nova, não sabe mais viver sem a moto. Comprou a primeira máquina há 16 anos. Desde então, nunca mais deixou a moto de lado. Nesse tempo já comprou três veículos motorizados e aposentou de vez o jumento. Com a moto, João Pereira faz de tudo. Ela encurta distâncias e diminui o tempo em que as atividades do campo são realizadas.

A moto é companheira inseparável de todos os dias. O agricultor, que é casado e pai de quatro filhos, ganha a vida em cima de duas rodas. Por dia faz pelo menos quatro viagens para o Sítio Ourique, onde entrega o leite retirado de uma das fazendas da cidade. A estrada de terra e a paisagem fechada da zona rural não são obstáculos. No inverno, quando as estradas ficam cheias de lama, João Pereira só consegue passar na moto.

Na cidade de Fagundes, no Agreste do Estado, as motos disputam espaço com burros, cavalos, pessoas e carros. Estão em toda a parte. Magno Martins de Andrade, de 30 anos, morador do Sítio Candeia, viu na motocicleta a chance de aumentar a renda e resolveu arriscar. Na cidade onde mora, a quase 120 km de João Pessoa, as motos estão em toda a parte. Uma é de Magno. Com ela, o agricultor carrega leite de vaca das fazendas dos pequenos produtores até uma empresa de laticínios da área rural. ”Com a moto eu faço de tudo. Carrego leite, gás de cozinha e a feira, além de levar os meninos para a escola”, contou ao PBAgora.

Desde que a moto chegou à cidade, ele abandonou o velho jumento e, hoje, só anda sob duas rodas. Nela, tira o sustento para criar os dois filhos e a esposa Jeane Pereira da Silva. O agricultor conta que, todos os dias, acorda cedo, por volta das 4h, e vai tirar o leite do gado. Minutos depois já está em cima da moto carregando o leite para o sítio Cumbe e outros sítios da região. O irmão de Magno, o agricultor Luciano Martins de Andrade, também viu na moto um meio de ganhar a vida e aposentou o jumento. Ele criou uma fábrica artesanal de queijo e distribui o produto para a região em cima da moto. “Sem a moto o negócio não iria prosperar”, revelou.  

A moto é o veículo que mais se adequa ao bolso e aos caminhos percorridos por Luciano Martins. Em meses de chuva, um riacho transborda e fica impossível passar de carro para o outro lado, onde fica boa parte das criações de gado da área. Com o cavalo mecânico, ele recolhe o leite da propriedade de vários fornecedores, inclusive do irmão Magno.

Sumé, no Cariri paraibano, é um pedaço desse novo retrato que se revela aos olhos de quem trafega pelas entranhas dos estados nordestinos. Nas fazendas de um de seus povoados, os torrões, bois são trocados por motos que, por sua vez, tangem o gado, transportam o leite e carregam na garupa animais recém-abatidos. A moto virou multiuso e já se transformou em um dos principais meios de transportes da cidade.

A dona de casa Janeide Oliveira, 48 anos, há muito tempo aposentou a máquina de costurar. Trocou a máquina por uma moto. É com ela que ganha a vida entregando iogurte na zona rural da cidade. Com a atividade realizada graças ao transporte, cria os três filhos. “É um transporte que me ajuda muito”, conta.

As motos chegaram mesmo para mudar o interior. Nas grandes cidades, elas estão ao alcance dos olhos e do bolso de todos. O comerciante Gilvan da Silva, morador de Vila Santa Terezinha, encontrou na moto um meio de ganhar a vida. Ele já trabalhou em várias funções, mas a atividade que mais se encaixou com a sua realidade foi a exercida em uma moto. Ele passa quase 12 horas em cima da máquina entregando gás. “A moto é o meu ‘ganha pão’”, revela.



No Sertão, a moto chegou para mudar costumes. Em cidades como Sousa, Patos, Pombal e Cajazeiras não existem leis que impeçam os motoqueiros de subir no transporte e exibi-la como se fosse uma conquista, um produto de luxo.  Eles cortam a cidade de um lado para o outro, se expondo ao perigo e ignorando o risco de acidentes.

Que o diga agricultor João Hélio, 43 anos, morador do bairro Jardim Brasília. Desde a juventude, como muitos donos de terras da região, ele já andou muito de cavalo. Há mais de cinco anos, não sobe em um animal. E não sente falta. Trocou a cela pelo assento da moto. Nas suas terras, o ronco da motocicleta corta o ar pelo menos duas vezes ao dia. No bairro Vila Nova, em Cajazeiras, as motos também estão em toda a parte.

A engenheira Valéria Barros, assessora técnica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), conta que vários fatores explicam a paixão dos brasileiros, especialmente dos paraibanos, por motos. O espírito de aventura e as facilidades para adquirir o veículo impulsionam a população a adquirir o transporte.   Um território sem lei e sem xerife nas cidades interioranas No novo Nordeste que anda sob duas rodas falta de tudo quando o assunto é moto. Leis, respeito à vida e ordem. O município de Fagundes, localizado a mais de 120 km da capital João Pessoa, vive uma situação comum das grandes cidades brasileiras: a inexistência de fiscalização no tráfego de motocicletas.

Na cidade é possível constatar a circulação de duas ou três pessoas, sem o acessório de segurança, em uma única moto. Apesar do alto índice de acidente de trânsito com motocicletas, os motociclistas continuam expondo suas vidas, de suas mulheres, namoradas e filhos circulando sem capacete. Na avenida principal da cidade, a cada instante passam motociclistas sem capacetes, alguns levando crianças e idosos na carona.

As motos que disputam espaço com os pedestres e carros circulam irregularmente. O ambientalista Arame Fablício conta que 90% das motos da cidade estão com licenciamento atrasado. A falta de fiscalização contribui para que a irregularidade permaneça.

Em Galante, distrito de Campina Grande, a situação se repete. A localidade parece ser uma terra sem lei. As motos riscam o chão do distrito e correm de um lado para outro. Os pilotos se exibem, se arriscam brincando com a vida.  Em todos os cantos, se vê pessoas pilotando os veículos sem usar o capacete. Muitos transportam crianças e até mais de duas pessoas na garupa. Questionado sobre a irregularidade, o agricultor João da Silva disse que é normal e não se importava. Até mesmo quem foi eleito para fazer leis ignora as infrações de trânsito. Um vereador que tem atuação no distrito confirmou que lá ninguém tem essa preocupação, visto que não se trata de uma grande cidade. “Aqui isso é comum”, revelou.


Ausente de uma fiscalização mais rigorosa, as cidades do interior vêm contabilizando mortes de jovens por acidente de moto e, na maioria dos casos, as vítimas não usavam capacetes e, às vezes, estavam embriagadas. Em Taperoá a fiscalização também anda precária. Não há delegado na cidade para apurar as causas dos acidentes e os poucos policiais que fazem rondas são insuficientes para conter as infrações.

 E o que dizer de Queimadas? Na cidade do Agreste da Paraíba, o capacete é um acessório desconhecido de muitos. As motos circulam pela cidade expondo a população ao risco. Em cada rua, em toda esquina, subindo e descendo as ladeiras é fácil avistar mais de duas pessoas em cima de uma moto sem capacete. Em alguns casos, o veículo transporta até três e quatro pessoas de uma só vez. O agricultor José da Silva, morador da zona rural, confessou que costuma transportar a esposa e o filho menor no veículo. Ele está com o emplacamento da moto atrasada e não se preocupa em andar sem capacete. As motos estão sempre se encontrando em Queimadas. Uma cortando a outra.

Em apenas uma hora, a equipe de reportagem do PBAgora contou 50 pessoas pilotando motos, muitas delas, as chamadas cinquentinhas. Em todos os casos, nenhum motoqueiro usava capacete. Responsável pela fiscalização em 86 municípios do Compartimento da Borborema, o major Eduardo Jorge Andrade, comandante da 10º Companhia Policiamento de Trânsito (CPTRAN), garantiu que o órgão tem atuado firme para fazer a lei ser cumprida. Só que apesar da boa vontade, faltam homens suficientes para atender a todos.


Alagoa Nova, situada no Brejo paraibano, é o paraíso das motos. Em cima dos "cavalos motores" acontecem coisas que até “Deus” duvida. Só mesmo vendo para crê. Crianças pilotando motos com adultos na garupa; idosos se equilibrando sob as duas rodas; entre outras infrações. Imprudência e desrespeito à vida que transformam a cidade em uma das campeãs de acidentes. Na rua principal da cidade e na travessa Manuel Pereira as motos riscam o asfalto de um lado para o outro. Adolescentes transportam crianças e até bebês sem qualquer segurança. "Aqui muitas motos circulam sem o licenciamento. Os acidentes são constantes", revela o agricultor João Pereira.  

O comandante da CPTRAN garante que o órgão tem agido. Entre junho e outubro, várias equipes foram distribuídas realizando blitzens em cidades como Esperança, Alcantil, Queimadas, Cubati, Olivedos, Serra Branca, Assunção, Boqueirão, Pocinhos, Areial, Lagoa Seca entre outras. Em todas as cidades foram encontradas irregulares e dezenas de motos foram apreendidas. O pátio da Cptran, em Campina Grande, está cheio de motos. "A fiscalização vai continuar. Estamos nas ruas", garantiu em entrevista ao PBAgora.

De acordo com o comandante, as maiores irregularidades registradas nas cidades do interior paraibano são o não uso do capacete, o licenciamento atrasado e a falta de habilitação. O comandante observa que a moto, principalmente as cinquentinhas, viraram uma "febre" no interior, sendo que em muitas cidades o número de transporte circulando cresceu em mais de 100%. Há cidade em que as lojas chegam a vender 700 cinquentinhas por mês. "Tudo isso contribuiu para o crescimento desse fenômeno", disse.

Uma epidemia que dá medo

As estatísticas são alarmantes e dão medo. Todos os dias, nas horas mais imprevisíveis, um acidente de moto acontece na Paraíba. Subir em uma moto, acelerar fundo e avançar rumo ao desconhecido é um risco. O perigo pode está na frente, na próxima esquina. Entre o sinal vermelho e o amarelo, o perigo pode surgir. E se não tiver cuidado o choque inevitável. Ou a queda fatal. As mortes em veículos de duas rodas chegam a 36% nas BRs da Paraíba, segundo dados preocupantes da Polícia Rodoviária Federal.


O problema ganhou contornos assustadores com o recente crescimento econômico, que aumentou o poder de consumo de parte significativa da população, mas atropelou etapas fundamentais de qualquer processo de desenvolvimento. De acordo com a engenheira em trânsito, Valéria Barros, a estrutura social - educação, trânsito, transporte e saúde - entrou em colapso com a onda desenfreada de consumo de motos e motonetas.


Por Severino Lopes

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